Durante décadas, a evolução dos computadores foi baseada em uma ideia relativamente simples: aumentar a capacidade de processamento utilizando bits, que representam informações como 0 ou 1.
Essa lógica está por trás de praticamente tudo o que usamos atualmente:
- smartphones;
- notebooks;
- servidores;
- videogames;
- data centers;
- sistemas bancários;
- redes sociais;
- inteligência artificial.
Mas existe uma tecnologia que pretende explorar uma lógica completamente diferente:
a computação quântica.
Em vez de trabalhar exclusivamente com bits tradicionais, computadores quânticos utilizam qubits, que exploram propriedades da mecânica quântica.
O objetivo não é simplesmente fabricar um computador “mais rápido”.
A proposta é resolver determinados tipos de problemas de uma maneira que computadores clássicos podem ter enorme dificuldade para executar.
E existe uma consequência particularmente importante:
computadores quânticos suficientemente poderosos poderão ameaçar parte da criptografia utilizada atualmente.
Esse futuro ainda não chegou.
Mas a preparação já começou.
Em agosto de 2024, o NIST, instituto norte-americano responsável por padrões e tecnologia, aprovou três padrões de criptografia pós-quântica: FIPS 203, FIPS 204 e FIPS 205.
Em março de 2025, o órgão também selecionou o algoritmo HQC para padronização como uma alternativa adicional para estabelecimento de chaves.
E em 2026 o assunto ganhou ainda mais relevância.
No Brasil, a Paraíba está implantando o Centro Internacional de Computação Quântica, enquanto pesquisadores e instituições discutem computação, comunicação, informação e metrologia quânticas no Congresso Brasileiro de Ciências e Tecnologias Quânticas, realizado entre 21 e 25 de setembro de 2026.
Então, afinal:
o que a computação quântica tem a ver com o seu celular, sua conta bancária e suas senhas?
A resposta está na criptografia.
O que é computação quântica?
A computação quântica é um modelo de computação que utiliza fenômenos da mecânica quântica para processar informação.
Enquanto um computador tradicional trabalha com bits, um computador quântico utiliza qubits.
Um bit clássico pode assumir:
0 ou 1.
Um qubit pode ser preparado em uma combinação quântica de estados, conhecida como superposição, até que uma medição produza um resultado.
Além da superposição, sistemas quânticos podem utilizar fenômenos como:
- emaranhamento;
- interferência quântica;
- superposição de estados.
Esses fenômenos permitem construir algoritmos específicos que exploram propriedades que não estão disponíveis da mesma maneira na computação clássica.
Um qubit é simplesmente um bit que vale 0 e 1 ao mesmo tempo?
Essa é uma explicação popular, mas incompleta.
Dizer que um qubit é “0 e 1 ao mesmo tempo” ajuda a criar uma intuição inicial, mas não descreve completamente a mecânica quântica.
O qubit é um sistema físico cujo estado pode ser representado por uma combinação de estados-base.
O ponto realmente importante é que algoritmos quânticos conseguem manipular amplitudes e interferências de maneira controlada.
É isso que permite obter vantagens computacionais em determinados problemas.
Computadores quânticos não serão melhores em tudo
Esse é um dos maiores mitos sobre a tecnologia.
Um computador quântico não deve simplesmente substituir seu notebook.
Você não vai necessariamente abrir um navegador, editar uma foto ou assistir a um vídeo e perceber que um computador quântico é “mil vezes mais rápido”.
A vantagem quântica está associada a determinados tipos de problemas.
Entre as áreas de pesquisa estão:
- química computacional;
- simulação de materiais;
- otimização;
- física;
- criptografia;
- ciência de materiais;
- alguns problemas matemáticos;
- determinadas aplicações de aprendizado de máquina.
Portanto, a pergunta correta não é:
“Computador quântico é mais rápido que computador normal?”
Mas:
“Para quais problemas um computador quântico pode oferecer uma vantagem relevante?”
O que é um qubit?
Qubit é a abreviação de quantum bit.
Ele é a unidade básica de informação em um computador quântico.
Na prática, existem diferentes tecnologias para construir qubits.
Entre as abordagens estudadas estão:
- circuitos supercondutores;
- íons aprisionados;
- átomos neutros;
- fótons;
- spins;
- qubits topológicos.
Cada abordagem apresenta vantagens, limitações e desafios de engenharia.
Por que construir um computador quântico é tão difícil?
Porque os estados quânticos são extremamente delicados.
Eles podem sofrer interferências do ambiente, um problema frequentemente chamado de decoerência.
Temperatura, vibração, ruído eletromagnético e outras interações podem prejudicar o funcionamento do sistema.
Por isso, computadores quânticos exigem tecnologias sofisticadas.
Dependendo da arquitetura, isso pode envolver:
- temperaturas extremamente baixas;
- sistemas ópticos;
- controle eletrônico de alta precisão;
- isolamento;
- correção de erros;
- equipamentos especializados.
É por isso que ainda estamos longe de ter computadores quânticos em nossas casas.
O problema dos erros quânticos
Um computador tradicional também pode apresentar erros.
Mas sistemas digitais clássicos possuem mecanismos extremamente maduros para lidar com eles.
Na computação quântica, a situação é mais delicada.
Um qubit pode sofrer erros devido ao próprio ambiente.
Por isso, um dos grandes desafios do setor é desenvolver correção de erros quânticos.
A ideia é utilizar vários qubits físicos para formar um qubit lógico mais confiável.
Esse processo exige uma quantidade significativa de recursos.
É um dos motivos pelos quais o número de qubits de um sistema, sozinho, não determina sua capacidade real.
Mais qubits significa automaticamente um computador quântico melhor?
Não.
Imagine dois computadores:
Computador A: muitos qubits, mas alta taxa de erro.
Computador B: menos qubits, mas melhor qualidade e controle.
Não é possível simplesmente dizer que o primeiro é melhor porque possui um número maior.
Também precisamos considerar:
- fidelidade;
- conectividade;
- tempo de coerência;
- taxa de erro;
- capacidade de correção;
- profundidade dos circuitos;
- qualidade dos qubits.
Por isso, comparar computadores quânticos apenas pelo número de qubits é semelhante a comparar computadores tradicionais apenas pela quantidade de núcleos do processador.
Então por que estamos falando tanto disso agora?
Porque a tecnologia está avançando.
Mas existe outro motivo ainda mais importante:
a segurança digital precisa se preparar antes que computadores quânticos suficientemente poderosos existam.
Essa preparação é chamada de:
criptografia pós-quântica.
O que é criptografia?
Criptografia é o conjunto de técnicas utilizadas para proteger informações.
Ela está presente quando você:
- acessa seu banco;
- entra em um site HTTPS;
- envia mensagens;
- faz compras online;
- utiliza aplicativos;
- acessa serviços em nuvem.
Quando você vê o cadeado no navegador, existe criptografia trabalhando em algum ponto da comunicação.
Ela ajuda a proteger informações contra interceptação e manipulação.
Como a criptografia pode ser afetada por computadores quânticos?
Alguns sistemas criptográficos utilizados atualmente dependem da dificuldade matemática de determinados problemas.
Com um computador clássico, certos problemas podem ser impraticáveis de resolver em tempo razoável.
Mas um computador quântico suficientemente poderoso poderia utilizar algoritmos específicos para acelerar determinados ataques.
O exemplo mais conhecido é o algoritmo de Shor.
Apresentado por Peter Shor em 1994, ele mostrou teoricamente como um computador quântico poderia fatorar grandes números e resolver determinados problemas de logaritmos discretos de forma muito mais eficiente que os melhores métodos clássicos conhecidos.
Isso tem implicações para sistemas criptográficos amplamente utilizados.
Isso significa que a criptografia atual vai desaparecer amanhã?
Não.
Esse é um ponto essencial.
Os computadores quânticos atuais ainda não possuem capacidade prática para quebrar os principais sistemas criptográficos utilizados na internet em larga escala.
O problema é que a migração para uma nova infraestrutura de segurança pode levar anos.
Empresas possuem:
- servidores;
- aplicativos;
- certificados;
- dispositivos;
- bancos de dados;
- equipamentos de rede;
- sistemas legados.
Trocar os mecanismos criptográficos de toda essa infraestrutura não acontece de uma hora para outra.
Por isso, a preparação precisa começar antes.
O que é criptografia pós-quântica?
A criptografia pós-quântica, ou PQC, busca desenvolver algoritmos criptográficos que sejam resistentes tanto a computadores clássicos quanto a possíveis ataques realizados por computadores quânticos.
O ponto interessante é:
ela não exige necessariamente um computador quântico.
Os algoritmos pós-quânticos podem ser executados em computadores convencionais.
Essa é uma diferença importante em relação à chamada criptografia quântica.
Criptografia pós-quântica é a mesma coisa que criptografia quântica?
Não.
São conceitos diferentes.
Criptografia pós-quântica
Utiliza algoritmos matemáticos executados em computadores convencionais.
Objetivo:
resistir a ataques de futuros computadores quânticos.
Criptografia quântica
Utiliza propriedades da física quântica para criar mecanismos de comunicação ou distribuição de chaves.
Um exemplo conhecido é:
QKD — Quantum Key Distribution.
Portanto:
PQC ≠ QKD.
A primeira é principalmente uma mudança matemática e de software/infraestrutura.
A segunda depende de tecnologia física especializada.
O NIST já definiu padrões pós-quânticos
Essa é uma das partes mais importantes da história.
Em 13 de agosto de 2024, o NIST publicou três padrões finais de criptografia pós-quântica:
FIPS 203
Baseado no ML-KEM.
É voltado principalmente ao estabelecimento seguro de chaves.
FIPS 204
Baseado no ML-DSA.
É utilizado para assinaturas digitais.
FIPS 205
Baseado no SLH-DSA.
Também é voltado a assinaturas digitais e utiliza uma abordagem matemática diferente.
Esses padrões foram criados para proteger sistemas contra futuras ameaças de computadores quânticos.
E o HQC?
Em 11 de março de 2025, o NIST selecionou o HQC para padronização como um mecanismo adicional de estabelecimento de chaves.
A escolha tem uma característica estratégica importante:
diversificar as bases matemáticas utilizadas na criptografia pós-quântica.
O ML-KEM continuará sendo a principal opção para criptografia geral, enquanto o HQC está sendo desenvolvido como alternativa de segurança adicional.
O NIST prevê a publicação do padrão final do HQC em 2027, após as etapas de desenvolvimento e comentários públicos.
Por que precisamos de mais de um algoritmo?
Imagine que todo o mundo utilize uma única técnica.
Se pesquisadores descobrirem uma vulnerabilidade matemática nessa técnica, o impacto poderá ser enorme.
Diversificar algoritmos reduz esse risco.
É semelhante a não colocar todos os sistemas críticos de uma empresa atrás de uma única camada de segurança.
O que é o “harvest now, decrypt later”?
Esse conceito é particularmente importante.
Imagine que alguém consiga interceptar hoje uma grande quantidade de dados criptografados.
Talvez essa pessoa não consiga decifrá-los atualmente.
Mas poderia armazená-los.
No futuro, caso exista capacidade computacional suficiente para quebrar aquela proteção, os dados antigos poderiam se tornar acessíveis.
Esse cenário é chamado de:
Harvest Now, Decrypt Later
ou:
“colha agora, descriptografe depois”.
Isso é especialmente relevante para informações que precisam permanecer secretas durante muitos anos.
Exemplos:
- documentos governamentais;
- propriedade intelectual;
- pesquisas;
- informações militares;
- dados financeiros;
- documentos estratégicos.
Por que empresas deveriam se preocupar antes do computador quântico existir?
Porque a migração é complexa.
Imagine uma empresa que possui:
- 20 mil computadores;
- centenas de servidores;
- aplicativos próprios;
- dispositivos IoT;
- sistemas legados;
- equipamentos de rede;
- fornecedores terceirizados.
Será necessário descobrir:
onde existe criptografia?
Isso pode ser muito mais difícil do que simplesmente instalar uma atualização.
O problema da “criptoagilidade”
Existe um conceito importante nesse processo:
crypto agility, ou criptoagilidade.
É a capacidade de uma organização substituir mecanismos criptográficos sem precisar reconstruir toda sua infraestrutura.
Imagine um sistema desenvolvido de maneira rígida.
A criptografia está espalhada pelo código.
Trocar o algoritmo exige reescrever tudo.
Agora imagine outro sistema.
Os mecanismos criptográficos são abstraídos.
A organização consegue trocar um algoritmo por outro com impacto muito menor.
O segundo sistema é mais criptoágil.
O que empresas deveriam fazer agora?
Não é necessário comprar um computador quântico.
A primeira etapa é muito mais simples:
inventariar a criptografia existente.
Pergunte:
- Onde utilizamos criptografia?
- Quais algoritmos são utilizados?
- Quais sistemas dependem de RSA?
- Onde usamos ECC?
- Quais certificados existem?
- Quais dispositivos não podem ser atualizados?
- Quais dados precisam permanecer secretos por muitos anos?
Esse inventário é o início da migração.
RSA vai desaparecer?
Não imediatamente.
RSA continua sendo utilizado em muitos sistemas.
Mas algoritmos de chave pública vulneráveis a determinados ataques quânticos precisam ser substituídos progressivamente por alternativas resistentes.
O objetivo da criptografia pós-quântica não é simplesmente “jogar fora tudo”.
É criar uma transição planejada.
E o HTTPS?
A internet moderna depende de protocolos criptográficos para estabelecer conexões seguras.
O movimento pós-quântico já está chegando a padrões e protocolos utilizados na infraestrutura da internet.
O NIST observa que algoritmos pós-quânticos estão sendo incorporados a padrões da indústria e que organizações como a IETF trabalham na integração desses algoritmos a protocolos como o TLS.
Isso significa que a transição não ficará restrita a laboratórios.
Ela deverá chegar gradualmente aos navegadores, servidores, sistemas operacionais e serviços online.
O que isso muda para quem usa celular?
Provavelmente você não precisará fazer nada extraordinário imediatamente.
Seu smartphone continuará funcionando.
Aplicativos continuarão utilizando HTTPS.
Bancos continuarão protegendo conexões.
Mas, nos próximos anos, fabricantes e desenvolvedores precisarão atualizar as tecnologias criptográficas utilizadas por seus sistemas.
Em outras palavras:
a mudança acontecerá principalmente nos bastidores.
E os aplicativos bancários?
Bancos possuem um dos maiores incentivos para acompanhar essa transição.
Eles protegem informações extremamente valiosas:
- saldo;
- transações;
- identidade;
- cartões;
- documentos;
- dados pessoais.
A infraestrutura bancária utiliza múltiplas camadas de segurança.
A criptografia pós-quântica pode se tornar parte dessa estratégia à medida que os padrões amadurecem e a indústria migra.
E o Pix?
O Pix depende de uma infraestrutura tecnológica complexa.
A segurança não está baseada em uma única tecnologia.
Existem:
- autenticação;
- criptografia;
- certificados;
- controles de acesso;
- monitoramento;
- infraestrutura bancária.
Uma eventual migração para padrões pós-quânticos seria uma questão de infraestrutura e governança tecnológica, não uma mudança que o usuário precisaria configurar no aplicativo.
E as mensagens privadas?
Aplicativos de comunicação também precisarão acompanhar a evolução criptográfica.
Serviços que utilizam criptografia ponta a ponta precisam avaliar como seus mecanismos de troca de chaves e autenticação poderão resistir a futuros ataques quânticos.
Essa transição será particularmente importante para informações que precisam permanecer privadas durante muito tempo.
Computação quântica também pode ajudar a segurança?
Sim.
A mesma tecnologia que pode ameaçar determinados sistemas criptográficos também pode abrir novas possibilidades.
Pesquisadores estudam aplicações quânticas em:
- geração de números aleatórios;
- comunicação segura;
- distribuição quântica de chaves;
- detecção;
- otimização;
- simulação.
Por isso, não devemos enxergar a computação quântica apenas como uma ameaça.
Ela é uma tecnologia com aplicações potencialmente transformadoras.
E o Brasil?
O Brasil também está entrando nessa corrida.
Um dos projetos mais interessantes está na Paraíba.
O Centro Internacional de Computação Quântica (CIQuanta) foi concebido para reunir infraestrutura, pesquisa, formação de profissionais e interação com empresas.
A página oficial do projeto informa que a infraestrutura prevê computadores quânticos operacionais de 20 e 100 qubits, além de laboratórios especializados.
Por que a Paraíba está construindo um centro quântico?
O projeto busca criar uma estrutura que não seja apenas um laboratório isolado.
A proposta envolve:
- pesquisa;
- formação de talentos;
- desenvolvimento tecnológico;
- colaboração com universidades;
- participação empresarial;
- conexão com redes internacionais.
Em 2025, o MCTI informou que a proposta incluía aquisição de computador quântico, transferência de tecnologia e formação de pesquisadores.
O investimento brasileiro
O projeto do CIQuanta foi anunciado com investimento de R$ 75 milhões, dividido entre o Governo da Paraíba e o Governo Federal por meio do MCTI.
Isso mostra que o país está tratando a tecnologia quântica como uma área estratégica de ciência e inovação.
O primeiro computador quântico brasileiro será gigantesco?
Não.
E esse é justamente um ponto que precisa ser explicado.
O objetivo inicial não é competir imediatamente com os maiores sistemas quânticos comerciais do mundo.
O valor de uma infraestrutura nacional também está em:
- formar pesquisadores;
- testar algoritmos;
- desenvolver aplicações;
- criar conhecimento;
- estabelecer competências;
- conectar academia e indústria.
Em tecnologias emergentes, construir capacidade humana pode ser tão importante quanto comprar hardware.
O Brasil também está formando pesquisadores
Esse é um dos pontos centrais do CIQuanta.
A infraestrutura prevê programas de capacitação para estudantes, pesquisadores e profissionais.
Isso é fundamental porque computadores quânticos não podem ser tratados como simples servidores.
É necessário conhecimento em:
- física;
- matemática;
- computação;
- engenharia;
- ciência de materiais;
- criptografia;
- algoritmos.
A computação quântica já chegou ao debate brasileiro
Entre 21 e 25 de setembro de 2026, acontece em Niterói o primeiro Congresso Brasileiro de Ciências e Tecnologias Quânticas (CBCTQ 2026).
A programação reúne quatro grandes áreas:
- computação quântica;
- comunicação quântica;
- informação quântica;
- metrologia quântica.
Isso mostra que o tema já deixou de ser apenas uma discussão restrita a laboratórios internacionais.
Quais áreas brasileiras podem se beneficiar?
Ainda é cedo para prever quais aplicações terão maior impacto.
Mas áreas de pesquisa incluem possibilidades em:
Saúde
Simulação molecular e desenvolvimento de medicamentos.
Indústria
Otimização e modelagem de materiais.
Energia
Problemas de otimização e simulação.
Logística
Rotas e problemas complexos de otimização.
Finanças
Modelagem e otimização de determinados problemas.
Segurança
Criptografia e proteção de infraestrutura.
Ciência
Simulação de sistemas físicos e químicos.
Computação quântica e Inteligência Artificial
Existe também uma possível relação com IA.
Pesquisadores estudam quantum machine learning, buscando utilizar recursos quânticos em determinadas etapas de problemas de aprendizado de máquina.
Mas é importante evitar exageros.
A computação quântica ainda não substituiu GPUs tradicionais para treinamento de grandes modelos de IA.
A área permanece em pesquisa.
Computação quântica vai substituir a IA?
Não.
São tecnologias diferentes.
A IA utiliza modelos computacionais para aprender padrões, gerar conteúdo, fazer previsões ou tomar decisões.
A computação quântica é uma forma diferente de processar determinados problemas.
No futuro, elas podem trabalhar juntas.
Mas não existe uma relação simples de:
quântico > IA tradicional.
E os smartphones quânticos?
Não espere um “iPhone quântico” ou “Galaxy quântico” tão cedo.
Computadores quânticos atuais exigem infraestrutura especializada.
O futuro dos dispositivos de consumo provavelmente continuará baseado em:
- CPUs;
- GPUs;
- NPUs;
- chips especializados.
A computação quântica deve permanecer inicialmente concentrada em centros especializados e acesso remoto via nuvem.
Podemos acessar computadores quânticos pela internet?
Sim.
Existem plataformas que permitem acesso remoto a hardware quântico.
Isso é importante porque pesquisadores não precisam necessariamente possuir um computador quântico fisicamente.
Eles podem desenvolver e testar algoritmos em sistemas disponibilizados remotamente.
Esse modelo é semelhante à computação em nuvem tradicional.
O computador quântico do futuro ficará em um data center?
É provável que muitos sistemas permaneçam em instalações especializadas.
Dependendo da tecnologia utilizada, podem ser necessários:
- refrigeração avançada;
- controle ambiental;
- equipamentos ópticos;
- eletrônica especializada;
- isolamento.
Portanto, a tendência não é colocar um computador quântico ao lado do servidor convencional sem qualquer infraestrutura adicional.
O que significa “vantagem quântica”?
É o ponto em que um computador quântico demonstra uma vantagem relevante sobre os melhores métodos clássicos conhecidos para determinado problema.
Existe uma diferença entre:
demonstrar uma vantagem experimental e ter uma vantagem comercial prática.
Um experimento pode mostrar que determinada tarefa é mais rápida em condições específicas, mas isso não significa automaticamente que o sistema seja economicamente útil para empresas.
Estamos perto de um computador quântico capaz de quebrar a internet?
Não há base para afirmar que isso acontecerá amanhã ou em uma data específica.
A capacidade necessária ainda é um desafio enorme.
Mas também seria um erro concluir:
“Então não precisamos fazer nada.”
A migração criptográfica é demorada.
É justamente por isso que o NIST recomenda iniciar a transição para padrões pós-quânticos agora.
A ameaça quântica é mais importante para governos e empresas?
No curto prazo, principalmente.
Organizações com dados que precisam permanecer confidenciais durante décadas possuem maior motivo para se preparar.
Para o usuário comum, a consequência será principalmente indireta.
Os sistemas que usamos precisarão ser atualizados.
O que você pode fazer hoje?
Não é necessário aprender física quântica.
Mas algumas atitudes continuam importantes.
Use sistemas atualizados
Atualizações de segurança são fundamentais.
Escolha serviços confiáveis
Grandes serviços financeiros e tecnológicos possuem equipes dedicadas à evolução criptográfica.
Evite aplicativos desconhecidos
Principalmente aqueles que manipulam informações sensíveis.
Use autenticação forte
Senhas fortes, gerenciadores de senhas e autenticação multifator continuam importantes.
Proteja seus dados
Quanto menos informação sensível exposta, menor o impacto de qualquer futura quebra de segurança.
A criptografia pós-quântica vai deixar a internet mais lenta?
Pode haver impactos de desempenho.
Alguns algoritmos pós-quânticos possuem chaves ou assinaturas maiores que os mecanismos tradicionais.
Isso pode afetar:
- largura de banda;
- armazenamento;
- processamento;
- tempo de handshake.
Mas a indústria está trabalhando para otimizar essas tecnologias.
O objetivo é encontrar um equilíbrio entre:
segurança + desempenho + compatibilidade.
A migração será automática?
Em muitos casos, o usuário provavelmente nem perceberá.
Fabricantes e desenvolvedores poderão atualizar:
- sistemas operacionais;
- navegadores;
- servidores;
- bibliotecas;
- protocolos.
Em outros casos, será necessário substituir equipamentos antigos que não suportem novos algoritmos.
É por isso que criptoagilidade é tão importante.
O que acontece com dispositivos antigos?
Esse pode ser um problema significativo.
Imagine um equipamento IoT instalado em 2020.
O fabricante pode ter parado de oferecer atualizações.
Se aquele dispositivo depender de um algoritmo criptográfico que futuramente se torne inadequado, não será possível simplesmente instalar uma nova versão.
Talvez seja necessário:
substituir o dispositivo.
Isso pode ser caro em ambientes com milhões de equipamentos.
A Internet das Coisas será um desafio
A IoT pode ser particularmente sensível à transição.
Existem bilhões de dispositivos conectados no mundo.
Muitos possuem:
- pouco processamento;
- pouca memória;
- firmware limitado;
- longos ciclos de vida.
Migrar todos esses equipamentos para novos padrões criptográficos será uma tarefa gigantesca.
E os carros conectados?
Veículos modernos também possuem:
- conectividade;
- atualizações remotas;
- sistemas de comunicação;
- aplicativos;
- serviços em nuvem.
Um veículo pode permanecer em circulação durante muitos anos.
Isso significa que os mecanismos de segurança precisam ser projetados pensando no longo prazo.
E os sistemas governamentais?
Governos possuem um problema ainda maior.
Alguns dados precisam permanecer protegidos por décadas.
Além disso, existem sistemas legados que não podem ser facilmente substituídos.
Por isso, a criptografia pós-quântica também é uma questão de soberania e infraestrutura crítica.
Computação quântica pode mudar a segurança digital mais do que a própria IA?
É possível que seu impacto seja profundo, mas de uma maneira diferente.
A IA está mudando:
- produtividade;
- criação de conteúdo;
- software;
- busca;
- automação.
A computação quântica pode alterar uma camada menos visível:
a matemática que sustenta a segurança digital.
Se determinados sistemas criptográficos precisarem ser substituídos em escala global, será uma transformação gigantesca — mesmo que o usuário comum nunca veja um computador quântico.
IA e computação quântica podem evoluir juntas
Existe ainda uma possibilidade interessante.
A IA pode ajudar pesquisadores a:
- encontrar materiais;
- otimizar circuitos;
- detectar erros;
- descobrir vulnerabilidades;
- projetar algoritmos.
Ao mesmo tempo, computadores quânticos podem eventualmente acelerar determinados problemas relevantes para IA.
Isso não significa que teremos “IA quântica” amanhã.
Mas as duas áreas podem convergir progressivamente.
Um futuro híbrido
Assim como hoje convivemos com:
CPU + GPU + NPU + cloud
podemos no futuro ter:
CPU + GPU + NPU + QPU + cloud
A QPU, ou Quantum Processing Unit, seria o componente responsável pelo processamento quântico em sistemas especializados.
A maior parte das tarefas continuaria em computadores tradicionais.
Problemas específicos poderiam ser enviados para uma unidade quântica.
O computador quântico provavelmente será um acelerador
Essa talvez seja a melhor maneira de imaginar o futuro.
Não como:
“um computador quântico substituindo seu notebook”.
Mas como:
um acelerador especializado disponível para determinadas tarefas.
É semelhante ao papel atual das GPUs.
Você não usa uma GPU para tudo.
Mas, para determinadas tarefas, ela é extremamente útil.
O que muda para quem trabalha com tecnologia?
Muito.
Desenvolvedores e profissionais de infraestrutura precisarão entender progressivamente:
- criptografia pós-quântica;
- gerenciamento de chaves;
- certificados;
- protocolos;
- criptoagilidade;
- segurança de APIs;
- sistemas legados.
Não significa que todo desenvolvedor precisará se tornar físico quântico.
Mas segurança pós-quântica tende a entrar no repertório técnico da indústria.
O que muda para quem cria sites?
Para sites comuns, não haverá uma revolução imediata.
Mas profissionais que trabalham com:
- e-commerce;
- bancos de dados;
- APIs;
- autenticação;
- sistemas corporativos;
- dados sensíveis;
devem acompanhar a evolução dos protocolos de segurança.
Isso é especialmente importante para aplicações que terão vida útil de muitos anos.
E para pequenos negócios?
A preocupação principal não é comprar tecnologia quântica.
É escolher fornecedores que mantenham seus sistemas atualizados.
Por exemplo:
- hospedagem;
- plataformas de e-commerce;
- gateways de pagamento;
- bancos;
- serviços de autenticação;
- sistemas de gestão.
Um pequeno negócio depende da infraestrutura de grandes fornecedores.
A atualização pós-quântica acontecerá principalmente nessa cadeia.
A computação quântica é uma ameaça ou oportunidade?
As duas coisas.
Ameaça
Pode colocar em risco determinados mecanismos criptográficos atuais.
Oportunidade
Pode resolver problemas que hoje são extremamente difíceis.
Ameaça
Exige migração de infraestrutura.
Oportunidade
Pode criar novas indústrias e aplicações.
Ameaça
Pode aumentar a desigualdade tecnológica entre países.
Oportunidade
Pode estimular pesquisa, formação profissional e inovação.
O Brasil precisa participar dessa corrida?
Se a tecnologia realmente alcançar aplicações estratégicas, possuir conhecimento próprio será importante.
Não significa que o Brasil precise construir sozinho todos os componentes.
Mas precisa desenvolver:
- pesquisadores;
- engenheiros;
- algoritmos;
- infraestrutura;
- empresas;
- conhecimento;
- capacidade de avaliação.
Projetos como o CIQuanta podem contribuir justamente para essa formação de capacidade nacional.
O que observar nos próximos anos
Alguns indicadores serão especialmente importantes:
Correção de erros
Quanto mais confiáveis forem os qubits lógicos, mais perto estaremos de aplicações práticas.
Escalabilidade
Não basta construir alguns qubits.
É necessário construir sistemas maiores mantendo qualidade.
Algoritmos
Precisamos descobrir problemas nos quais computadores quânticos ofereçam vantagem real.
Criptografia
A migração para PQC continuará avançando.
Infraestrutura
Data centers e centros especializados precisarão evoluir.
Profissionais
A demanda por especialistas aumentará.
Checklist: como entender a revolução quântica
Se você quiser acompanhar o assunto sem se perder no excesso de termos técnicos, concentre-se nestes conceitos:
- Qubit: unidade de informação quântica.
- Superposição: propriedade que permite representar estados quânticos combinados.
- Emaranhamento: correlação quântica entre sistemas.
- QPU: unidade de processamento quântico.
- Algoritmo de Shor: demonstração teórica de impacto sobre determinados sistemas criptográficos.
- PQC: criptografia pós-quântica.
- ML-KEM: padrão de estabelecimento de chaves do NIST.
- ML-DSA: padrão de assinatura digital.
- SLH-DSA: alternativa de assinatura baseada em hash.
- HQC: algoritmo selecionado pelo NIST para padronização adicional.
FAQ
O que é computação quântica?
É um paradigma de computação que utiliza propriedades da mecânica quântica para processar informação por meio de qubits e algoritmos especializados.
Computador quântico é mais rápido que um computador normal?
Não em todas as tarefas. A possível vantagem quântica depende do problema. Computadores quânticos são projetados para explorar vantagens em determinadas classes de problemas.
O que é um qubit?
É a unidade básica de informação de um sistema quântico, equivalente conceitualmente ao papel que o bit exerce na computação clássica.
Computadores quânticos já conseguem quebrar a criptografia da internet?
Não em escala prática. A ameaça é considerada futura, mas a preparação já começou porque a migração da infraestrutura criptográfica pode levar anos.
O que é criptografia pós-quântica?
É uma classe de algoritmos criptográficos projetados para proteger informações contra ataques realizados por futuros computadores quânticos, podendo ser executados em computadores convencionais.
O que são ML-KEM e ML-DSA?
São algoritmos padronizados pelo NIST. O ML-KEM é destinado ao estabelecimento de chaves, enquanto o ML-DSA é utilizado para assinaturas digitais.
O que é HQC?
É um algoritmo selecionado pelo NIST em 2025 para padronização como mecanismo adicional de estabelecimento de chaves pós-quânticas.
Meu celular será afetado pela computação quântica?
Provavelmente sim de forma indireta. Sistemas operacionais, aplicativos, navegadores e serviços online precisarão evoluir seus mecanismos de segurança ao longo do tempo.
Preciso comprar algum equipamento quântico?
Não. Para usuários comuns, a principal preocupação atualmente é manter dispositivos e aplicativos atualizados e utilizar serviços que acompanhem a evolução da segurança.
O Brasil já possui computador quântico?
O Brasil está implantando infraestrutura para computadores quânticos. O CIQuanta, na Paraíba, prevê computadores quânticos operacionais de 20 e 100 qubits, além de laboratórios e formação de profissionais.
Computação quântica e IA são a mesma coisa?
Não. São tecnologias diferentes, embora possam eventualmente trabalhar juntas em determinadas aplicações.
Conclusão
A computação quântica ainda parece distante para quem utiliza um smartphone, trabalha em um notebook ou administra um pequeno negócio.
Você provavelmente não terá um computador quântico sobre a mesa tão cedo.
Mas isso não significa que a tecnologia seja irrelevante.
Na verdade, uma das maiores consequências da computação quântica pode acontecer antes mesmo de ela se tornar comum.
Estamos falando da necessidade de preparar a segurança digital para um cenário no qual determinadas técnicas criptográficas atuais poderão deixar de ser adequadas.
É por isso que o NIST já publicou padrões pós-quânticos e recomenda que organizações iniciem a migração.
Ao mesmo tempo, o Brasil está começando a construir sua própria capacidade científica e tecnológica nessa área, com iniciativas como o CIQuanta na Paraíba e a expansão da pesquisa acadêmica nacional.
A grande revolução quântica talvez não aconteça quando alguém comprar o primeiro computador quântico para uso doméstico.
Ela pode começar muito antes, quando:
bancos, governos, empresas, navegadores, aplicativos e servidores começarem a trocar silenciosamente os mecanismos criptográficos que protegem nossas informações.
Por isso, não é preciso ter medo da computação quântica.
É preciso entendê-la.
E, principalmente, compreender que segurança digital é uma corrida contínua.
A criptografia que protege seus dados hoje precisa ser preparada para as ameaças de amanhã.



